namoros com o Outono

Não fossem as exóticas e invasoras canas que entopem os rios e suas margens, e teríamos outonos de antologia.

Freixos Amieiros Salgueiros Choupos e Ulmeiros além de proporcionarem habitats para espécies que vão rareando, ir-nos-iam encher o olho por estas alturas, ao vestirem-se de cores várias antes de se despirem totalmente.

1000_Choupo_hib2

À falta desses postais ilustrados que não se podem fazer como gostaríamos na Asseca ou no Almargem, detenhamo-nos em paisagens mais particulares e individuais…

Dei comigo a observar o padrão (ou a falta dele) como algumas das árvores nossas se comportam nesta fase de (pré)desnudamento.

…há árvores autoritárias e outras completamente liberais. Umas impõem disciplina a todas as suas folhas, outras dão-lhes liberdade total.

Umas vezes são as folhas que, desobedecendo, marcam a sua personalidade vincando a diferença para as restantes. Outras vezes, respira-se que é da vontade do colectivo foliar que resulta a harmonia, mais do que da vontade da mãe árvore.

Continuar a ler

Anúncios

Barro

Do Barro fez Deus o Homem. Não pode por isso o Barro ser matéria despicienda. Antes pelo contrário.

É matéria que tem que se lhe diga por muitas razões mas todas elas da sua própria responsabilidade. A bem dizer, da sua própria natureza.

E se para os literais crentes do Génesis Deus criou o Homem a partir do Barro (=pó da terra), este, criado pelo mesmo Deus, é mais antigo que o Homem. Assim, quando o trabalhamos e manipulamos, é como se estivéssemos mexendo na nossa própria essência e natureza.

1000_maosno barro

Continuar a ler

Sal

 

Por alturas em que o Demiurgo responsável pelo mar ordenou às nuvens que cobriam a Terra (por essa altura, com pouco menos de 4.000 milhões de anos, ficava-lhe bem esse nome) que largassem o seu peso sobre as ainda quentes rugosas superfícies rochosas, sabia decerto, que o poder dissolvente daquela água em queda livre, faria com que a progressiva acumulação nas depressões fosse de natureza diferente da precipitada.

1000_salbb

Continuar a ler

Das papoilas à espiga

“Adeus aldeia que eu levo na ideia nunca mais voltar..” Assim cantava uma Papoila chamada Maria, aliás Mirita (que também não era) Casimiro nos idos tempos em que devagar se iniciava a fuga do campo para a cidade.

Tempos difíceis, muito difíceis, tempos de enxada e machado, e arados puxados por juntas ou mulas solitárias. De bois e carros quem os tinha. De noites à candeia. De colchões com recheio de folhado de milho. De uma sardinha para três.

Agora nós, mergulhados em urbanos confortos, do alto da nossa superioridade citadina, olhamos com nostalgia esses tempos que só os nossos ascendentes ou outros que ouvimos falar lá distantes sofreram.

1000_papoula

Continuar a ler

Erva-abelha e irmãs

As orquídeas selvagens que por aqui nascem e medram arrumam-se numa família de plantas de óbvio nome: Orchidaceae.

1000_erva-abelha1

 

Dessas todas e muitas aves ouvi falar o Dr. Brito de Carvalho, médico de formação, naturalista de eleição por vocação, que escutei com grande desvelo, e a quem dedico dessas ditas, as imagens que guardo e partilho.

Dizia-me ele que as tinha que procurar em terrenos não trabalhados pelas ferramentas do Homem, principalmente do Barrocal onde eram ocorrentes as do género Ophrys. E assim é que as encontramos com mais facilidade em terrenos bravos e escondidos, mesmo sendo verdade que há bermas em que as podemos ver da janela do carro.

Continuar a ler

Sair do Inverno

Respira-se diferente quando o Inverno se prepara para nos deixar a brincar às flores e ao pólen e às hormonas. Estas águas que por agora escorrem do Céu como em todos os partos, prenunciam dias de alegria e renovação.

1000_inverno1

O Inverno é um sono revigorante. No Inverno todos nós os seres vivos nos escondemos mais ou menos do frio, sob mantas protectoras feitas dos mais diversos materiais. Uns escondemo-nos no solo na forma de bolbos ou rizomas, outros protegemo-nos sob rijo e envolvente tegumento. Outros de nós voamos para latitudes mais amenas e em compensação outros ocupam aqui o nosso lugar.

Continuar a ler